Textos

[O ilê (e o mocó) da mona] - Luiz Morando

De certo modo, todo artista (re)cria um universo mítico do qual procede e de onde destaca peças que passam a representar sua forma de estar no mundo. É um processo íntimo e pessoal que se apresenta ao público transfigurado em algumas chaves de leitura. É um processo também que solicita do público uma (pré)disposição para sonhar, explorar fantasias.

Com Ilê da mona, Renato Morcatti dá continuidade a uma experiência de memória afetiva iniciada em Pirajá, sua primeira exposição individual. A casa onde o artista nasceu e viveu seus dez primeiros anos permanece como dínamo propulsor e santuário da matéria que compõe e organiza sua obra. A morada se faz presente a partir de revivescências guiadas pelas lembranças do lugar habitado e que também habita Morcatti ao longo da vida. Desta vez, suas emoções vão em direção à prática artesanal para ornamentação de cruzes de madeira com papel de seda, preparadas para proteger a casa e seus moradores contra o mal do mundo, exercício vivenciado em sua infância.

Esse trabalho manual ressurge na série Mariposa, especialmente na peça A cara a tapa, exposta na vitrine. Frágil e delicada, a obra se encontra em mutação e passará por um experimento de fotodegradação, com exposição constante à luz solar e ultravioleta (luz negra). O processo promoverá a descoloração progressiva de suas cores, "envelhecendo” ou “fazendo nascer”, na medida em que as propriedades da matéria forem sendo transformadas durante o período expositivo.

De outro lado, Renato resgata diferentes azulejos, peles/máscaras que revestem a maior parte das paredes da casa. Essas peças se tornam o fundo dos oito estandartes da série Guia, os quais entronizam uma figura recorrente retratada em posições atrativas.As formas florais ou geométricas dos azulejos são recriadas sobre lona na confecção dos estandartes. A técnica de criação e experimentação com esse tecido rústico se manifesta na habilidade de desenhar, pintar, cortar, amarrar, costurar, fazer nós utilizando o algodão, assim como o carvão, a tinta a óleo e acrílica. De objeto de culto religioso e popular, de prevenção contra maus fluidos, de exposição de divindades protetoras, os estandartes transgridem essas funções e se tornam manifestos irreverentes da mona que preside a este ilê.

Ilê da mona traz consigo um mocó, um esconderijo de outra memória afetiva, uma outra criação artística que não sabemos o quanto é anterior (ou não) ao projeto estético-artístico de Morcatti. Tara Wells ressurge e (re)encontra Re-nato na casa-santuário, no palco dos estandartes, no espaço da matriz religiosa que se torna transgressão. Tara emerge e passa a conviver com o espaço familiar, em uma nova dinâmica ainda a ser explorada e que abre novas perspectivas para a produção do artista.

Nesta nave-galeria, mergulhamos no ilê e no mocó de Renato Morcatti, nas memórias da casa, nas lembranças de Tara. Com uma surpresa adicional: uma vitrine na entrada que poderá funcionar como um prisma óptico, metamórfico, para buscar novas possibilidades de leitura.

 

NÓ OU NÓS - Nuno Ramos

Boa parte da arte mineira parte de coleções – essa é uma característica que atravessa trabalhos tão diferentes quanto os de Marcos Coelho Benjamin, Thaïs Helt, Rivane Neuenschwander, Cao Guimarães ou Eder Santos (é quase uma singularidade de Amilcar de Castro não colecionar, partindo da matéria, e não do objeto). Há em Minas um veio muito particular da história brasileira, que a Inconfidência, os poetas oitocentistas e um barroco tão singular iniciaram, mas que prosseguiu até o Brasil contemporâneo.

Colecionar é, de certa forma, historicizar, problematizar e preservar este veio, mas com uma ambiguidade de que é difícil se livrar.  Pois há, ao lado da vida e do vetor propositivo de toda obra de arte, algo adormecido, em suspensão, naquilo que foi colecionado, que permite o próprio ato de colecionar. A obra, então, parte de certa forma da necessidade de ressuscitar a matéria de que é feita. Esta ambivalência, que tem o peso do tempo e as aporias da memória em seu centro, atravessa estes trabalhos, e é com ela que têm de lidar. 

Renato Morcatti vem da prática da argila, da gravura e dos materiais mais diversos. Foi um assistente decisivo para os trabalhos de Marco Tulio Resende e Thaïs Helt. Aos poucos, seu próprio trabalho vai tomando forma, e não é de estranhar que partilhe esta característica geral.

Estamos às voltas aqui com coleções de molhos de chaves, segredos, retratos, instrumentos de trabalho, cravos. Há de fato um mundo rural atravessando estas obras, com seus artefatos, suas enormes fechaduras, suas portas emperradas rangendo, seus passos vergando o assoalho no andar de cima. 

Mas a idéia de coleção aqui está atravessada pela de multidão – tudo é múltiplo, aqui. Não vemos tanto os objetos um a um, mas seu conjunto, a totalidade deles, que forma um desenho próprio. Pirajá, o nome escolhido para a exposição, é um lugar onde se concentra uma população efervescente de peixes.

Quase todos os trabalhos têm 260 unidades, o que relega o indivíduo à insignificância. No caso do segredo das chaves (na obra Segredos, 2014-2016), esta totalidade só pode ser vista de cima, como uma passeata de rua em foto aérea. 

Esta multidão absurda me parece o mais interessante no trabalho de Renato. De um lado, há um fazer singular, um elogio mesmo do artesanato, da queima Bizen, por exemplo, que vem da vivência e habilidade do artista com tantos materiais. De outro, uma forma de entender este trabalho como multidão, o que apaga os rastros depositados em cada unidade. Como se uma força anônima fosse arrastando e apagando o rosto, o nome, os traços de cada um de nós.

PIRAJÁ - Vicente de Mello

O nome da exposição Pirajá surgiu pela confluência de significados, ao procurar a etimologia da palavra. Nas duas definições, a primeira vem do termo pira (peixes) + já (repleto), de origem Tupi, como lugar onde se coloca os peixes para serem tratados ou ... o que esta repleto de peixes. Já pelo dicionário Aurélio, seu significado vem da observação de um fenômeno telúrico: aguaceiro súbito e curto, violento e aluvial, acompanhando de ventania, comum nos trópicos, entre a costa da Bahia e os estados nordestinos.

Pirajá é o nome do bairro onde Renato Morcatti têm sua casa/atelier, em Belo Horizonte.
 Por uma visão realista fantástico, seria como se Renato habitasse e executasse sua obra dentro de uma tempestade, envolto por peixes/multidão em profusão.

E nesta imagem intangível, estão as séries escultóricas em cerâmica realizados em três técnicas distintas: o entalhe, a modelagem e a fundição, queimados pela técnica secular de queima japonesa Bizen, que dá uma propriedade impar de manchas e cores imprevisíveis; Como Entre, um conjunto de pequenos totens “trancados” em gaiola de aço retangular, uma analogia a questões sobre liberdade, opinião e posicionamento; Nós são simulações de molhos de chaves, unidas por anel de couro, suspensas em pregos cravados aleatoriamente na parede. Cada peça é única, chamada de NÓ; e Segredos, objetos cerâmicos, que são a representação da linha de encaixe dos segredos das chaves que fazem girar o tambor, que apresentadas em agrupamento, provoca uma observação não identificável de suas formas.
 

E as séries de desenhos, Escala Madre, que pela multiplicação de gestos gráficos, Renato determina a escala humana a partir da silhueta de seu corpo, sendo que ferramentas de agricultura que manipula a terra, são suas múltiplas cabeça, assim como no trabalho Escala 3x4. 

A repetição em seqüência, tanto das esculturas, quanto dos desenhos, formam a tessitura de pequenos sozinhos, que se tornam sociedade.A exposição Pirajá se dá por esta leitura de definições, onde tudo que é estranho, é “conclusão” da dúvida.

 

Alberto Saraiva - Curador

O artista criou para o Projeto Tech_Nô uma obra que reflete sobre a paisagem de Minas Gerais. Entretanto, ele propõe uma abordagem a partir da matéria, sim, porque há nas montanhas de Minas os notórios minérios que são transladados para várias partes do mundo.
 
Quando visualizamos uma montanha em Minas Gerais nos ocorre que em alguns anos ela poderá não estar mais ali. Trata-se de um fato intrigante porque as montanhas nos transmitem a impressão de serem potentes e perenes, contudo, elas correm o risco de serem devastadas, recortadas, fatiadas e vendidas, o que nos causa um estranhamento singular. E ainda hoje nos impressiona que lugares inteiros possam ter sua paisagem aniquilada.
 
A silhueta que o artista apresenta aqui nos coloca diante desse impasse. Ele decidiu se concentrar na matéria para forjar seu trabalho: montanhas negras, barro cru. Essa paisagem de Morcatti, por outro lado, acalma-nos, e convida-nos a pensar em negociações ideais, em que o homem e a natureza entram num acordo no qual a extração de minérios não devaste a beleza e o meio ambiente. Seria possível? Fica a pergunta para nossa reflexão.
 
Toda a obra de Renato passa por essa energia matérica, das ferramentas de construção e da agricultura, do fogo e da forja, do ferro e do aço. Ele é um Ogum em plena atividade!

Marco Tulio Resende 

A exposição ME VI, nasce de um olhar inquieto sobre a paisagem natural e construída, dos caminhos percorridos pelo artista e do desejo de compreensão do entorno em que vivemos.

Ver-se, nesse sentido, aponta não apenas para a memória, mas vai além e se transforma em um olhar distanciado de si mesmo, na busca de um significado subjetivo, sobre quem somos e o que buscamos.

Para Renato Morcatti, ver é apropriar-se do entorno, inventar e criar um vocabulário próprio, fruto do que é percebido.

A paisagem é um modo de representação da natureza, um mapeamento sensível do espaço. Como símbolo espacial de um imaginário, ela aponta para o sentido do universo que nos circunda.

Repletos de significados, os desenhos e esculturas reinventam o espaço como uma construção afetiva do lugar. Percebe-se que os trabalhos são compostos por marcas e matrizes. Marcas, pois expressam uma cultura, e matrizes porque participam dos esquemas de percepção, concepção e ação.

A relação entre paisagem e memória, está fundamentada na geografia da percepção, na existência de um conjunto de signos que refletem uma composição sensível, resultado de uma seleção plena de subjetividade a partir dos seus questionamentos.

Neste sentido, as obras da exposição ME VI resume o processo de criação do artista Renato Morcatti, atento a registrar através do desenho com traços, linhas e gestos, as dúvidas e perguntas suscitadas como uma escrita gráfica que instiga e gera a invenção de uma linguagem e de um universo poético.