Textos

NÓ OU NÓS - Nuno Ramos

O nome da exposição Pirajá surgiu pela confluência de significados, ao procurar a etimologia da palavra. Nas duas definições, a primeira vem do termo pira (peixes) + já (repleto), de origem Tupi, como lugar onde se coloca os peixes para serem tratados ou ... o que esta repleto de peixes. Já pelo dicionário Aurélio, seu significado vem da observação de um fenômeno telúrico: aguaceiro súbito e curto, violento e aluvial, acompanhando de ventania, comum nos trópicos, entre a costa da Bahia e os estados nordestinos. Pirajá é o nome do bairro onde Renato Morcatti têm sua casa/atelier, em Belo Horizonte.

 

Por uma visão realista fantástico, seria como se Renato habitasse e executasse sua obra dentro de uma tempestade, envolto por peixes/multidão em profusão. E nesta imagem intangível, estão as séries escultóricas em cerâmica realizados em três técnicas distintas: o entalhe, a modelagem e a fundição, queimados pela técnica secular de queima japonesa Bizen, que dá uma propriedade impar de manchas e cores imprevisíveis; Como Entre, um conjunto de pequenos totens “trancados” em gaiola de aço retangular, uma analogia a questões sobre liberdade, opinião e posicionamento; Nós são simulações de molhos de chaves, unidas por anel de couro, suspensas em pregos cravados aleatoriamente na parede. Cada peça é única, chamada de NÓ; e Segredos, objetos cerâmicos, que são a representação da linha de encaixe dos segredos das chaves que fazem girar o tambor, que apresentadas em agrupamento, provoca uma observação não identificável de suas formas.

 

E as séries de desenhos, Escala Madre, que pela multiplicação de gestos gráficos, Renato determina a escala humana a partir da silhueta de seu corpo, sendo que ferramentas de agricultura que manipula a terra, são suas múltiplas cabeça, assim como no trabalho Escala 3x4.

 

A repetição em seqüência, tanto das esculturas, quanto dos desenhos, formam a tessitura de pequenos sozinhos, que se tornam sociedade.

A exposição Pirajá se dá por esta leitura de definições, onde tudo que é estranho, é “conclusão” da dúvida.

PIRAJÁ - Vicente de Mello

Boa parte da arte mineira parte de coleções – essa é uma característica que atravessa trabalhos tão diferentes quanto os de Marcos Coelho Benjamin, Thaïs Helt, Rivane Neuenschwander, Cao Guimarães ou Eder Santos (é quase uma singularidade de Amilcar de Castro não colecionar, partindo da matéria, e não do objeto). Há em Minas um veio muito particular da história brasileira, que a Inconfidência, os poetas oitocentistas e um barroco tão singular iniciaram, mas que prosseguiu até o Brasil contemporâneo. Colecionar é, de certa forma, historicizar, problematizar e preservar este veio, mas com uma ambiguidade de que é difícil se livrar.  Pois há, ao lado da vida e do vetor propositivo de toda obra de arte, algo adormecido, em suspensão, naquilo que foi colecionado, que permite o próprio ato de colecionar. A obra, então, parte de certa forma da necessidade de ressuscitar a matéria de que é feita. Esta ambivalência, que tem o peso do tempo e as aporias da memória em seu centro, atravessa estes trabalhos, e é com ela que têm de lidar.

 

Renato Morcatti vem da prática da argila, da gravura e dos materiais mais diversos. Foi um assistente decisivo para os trabalhos de Marco Tulio Resende e Thaïs Helt. Aos poucos, seu próprio trabalho vai tomando forma, e não é de estranhar que partilhe esta característica geral. Estamos às voltas aqui com coleções de molhos de chaves, segredos, retratos, instrumentos de trabalho, cravos. Há de fato um mundo rural atravessando estas obras, com seus artefatos, suas enormes fechaduras, suas portas emperradas rangendo, seus passos vergando o assoalho no andar de cima.

 

Mas a idéia de coleção aqui está atravessada pela de multidão – tudo é múltiplo, aqui. Não vemos tanto os objetos um a um, mas seu conjunto, a totalidade deles, que forma um desenho próprio. Pirajá, o nome escolhido para a exposição, é um lugar onde se concentra uma população efervescente de peixes. Quase todos os trabalhos têm 260 unidades, o que relega o indivíduo à insignificância. No caso do segredo das chaves (na obra Segredos, 2014-2016), esta totalidade só pode ser vista de cima, como uma passeata de rua em foto aérea.

 

Esta multidão absurda me parece o mais interessante no trabalho de Renato. De um lado, há um fazer singular, um elogio mesmo do artesanato, da queima Bizen, por exemplo, que vem da vivência e habilidade do artista com tantos materiais. De outro, uma forma de entender este trabalho como multidão, o que apaga os rastros depositados em cada unidade. Como se uma força anônima fosse arrastando e apagando o rosto, o nome, os traços de cada um de nós.

Alberto Saraiva  

Curador

O artista criou para o Projeto Tech_Nô uma obra que reflete sobre a paisagem de Minas Gerais. Entretanto, ele propõe uma abordagem a partir da matéria, sim, porque há nas montanhas de Minas os notórios minérios que são transladados para várias partes do mundo.

 

Quando visualizamos uma montanha em Minas Gerais nos ocorre que em alguns anos ela poderá não estar mais ali. Trata-se de um fato intrigante porque as montanhas nos transmitem a impressão de serem potentes e perenes, contudo, elas correm o risco de serem devastadas, recortadas, fatiadas e vendidas, o que nos causa um estranhamento singular. E ainda hoje nos impressiona que lugares inteiros possam ter sua paisagem aniquilada.

 

A silhueta que o artista apresenta aqui nos coloca diante desse impasse. Ele decidiu se concentrar na matéria para forjar seu trabalho: montanhas negras, barro cru. Essa paisagem de Morcatti, por outro lado, acalma-nos, e convida-nos a pensar em negociações ideais, em que o homem e a natureza entram num acordo no qual a extração de minérios não devaste a beleza e o meio ambiente. Seria possível? Fica a pergunta para nossa reflexão.

 

Toda a obra de Renato passa por essa energia matérica, das ferramentas de construção e da agricultura, do fogo e da forja, do ferro e do aço. Ele é um Ogum em plena atividade!

Marco Tulio Resende

A exposição ME VI, nasce de um olhar inquieto sobre a paisagem natural e construída, dos caminhos percorridos pelo artista e do desejo de compreensão do entorno em que vivemos.

Ver-se, nesse sentido, aponta não apenas para a memória, mas vai além e se transforma em um olhar distanciado de si mesmo, na busca de um significado subjetivo, sobre quem somos e o que buscamos.

Para Renato Morcatti, ver é apropriar-se do entorno, inventar e criar um vocabulário próprio, fruto do que é percebido.

A paisagem é um modo de representação da natureza, um mapeamento sensível do espaço. Como símbolo espacial de um imaginário, ela aponta para o sentido do universo que nos circunda.

Repletos de significados, os desenhos e esculturas reinventam o espaço como uma construção afetiva do lugar. Percebe-se que os trabalhos são compostos por marcas e matrizes. Marcas, pois expressam uma cultura, e matrizes porque participam dos esquemas de percepção, concepção e ação.

A relação entre paisagem e memória, está fundamentada na geografia da percepção, na existência de um conjunto de signos que refletem uma composição sensível, resultado de uma seleção plena de subjetividade a partir dos seus questionamentos.

Neste sentido, as obras da exposição ME VI resume o processo de criação do artista Renato Morcatti, atento a registrar através do desenho com traços, linhas e gestos, as dúvidas e perguntas suscitadas como uma escrita gráfica que instiga e gera a invenção de uma linguagem e de um universo poético.

Vicente de Mello

Casta é um termo de origem espano portuguesa que resume a estruturação do sistema tradicional de hierarquias, que ainda é utilizado, para designar uma transmissão hereditária que inclua um oficio familiar.

Renato Morcatti, embaralha a noção de casta, rígida e imutável, propondo  a representação de quase autorretratos, em que suas múltiplas cabeças são a força do trabalho braçal.

A opacidade do papel de Escala Madre , dá a base para a transparência dos corpos desenhados (o que determina a escala humana, é a silhueta do corpo do artista), em traços que contrasta com a implacável barra de pigmento mineral que dá sustentação aos guardiões desenhados, propondo um lugar físico especifico para a figura: seus pés são seu próprio território.

A obra Escala 3x4, um bloco contendo 43 desenhos que representam a idade do artista, um autorretrato em aparência de documento oficial, está livre para o espectador manipulá-lo livremente, uma generosidade alheia aos tempos modernos.

A variedade da cor ocre ferrugem, nos Guardiões escultóricos, são a palheta de cores do território da ação, onde as cabeças/ferramentas de Renato pagam um tributo ao oficio de cultivar a nós mesmos como semente e colheita.

Não há contrates entre desenho e escultura, o artista cria uma estranha ambiguidade espacial, quando apresenta seus guardiões em diferentes formas, uma calorosa emoção na combinação de materiais, sem que eles sejam tradução um do outro.

Belo Horizonte   .    Brasil     © Renato Morcatti     Todos os direitos reservados.