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TEXTOS

Nuno Ramos

• Nuno Ramos

“Nó ou Nós”

• Fernanda Lopes

Ao som do tilintar das chaves 

• Marília Panitz
(à) sombra das ânforas.

• Vicente de Mello

“Pirajá”

• Alberto Saraiva

Passadiço​​

• Marco Tulio Resende

ME VI

• Luiz Morando

[O ilê (e o mocó) da mona]

Boa parte da arte mineira parte de coleções – essa é uma característica que atravessa trabalhos tão diferentes quanto os de Marcos Coelho Benjamin, Thaïs Helt, Rivane Neuenschwander, Cao Guimarães ou Eder Santos (é quase uma singularidade de Amilcar de Castro não colecionar, partindo da matéria, e não do objeto). Há em Minas um veio muito particular da história brasileira, que a Inconfidência, os poetas oitocentistas e um barroco tão singular iniciaram, mas que prosseguiu até o Brasil contemporâneo.

 

Colecionar é, de certa forma, historicizar, problematizar e preservar este veio, mas com uma ambiguidade de que é difícil se livrar.  Pois há, ao lado da vida e do vetor propositivo de toda obra de arte, algo adormecido, em suspensão, naquilo que foi colecionado, que permite o próprio ato de colecionar. A obra, então, parte de certa forma da necessidade de ressuscitar a matéria de que é feita. Esta ambivalência, que tem o peso do tempo e as aporias da memória em seu centro, atravessa estes trabalhos, e é com ela que têm de lidar.

Renato Morcatti vem da prática da argila, da gravura e dos materiais mais diversos. Foi um assistente decisivo para os trabalhos de Marco Tulio Resende e Thaïs Helt. Aos poucos, seu próprio trabalho vai tomando forma, e não é de estranhar que partilhe esta característica geral. Estamos às voltas aqui com coleções de molhos de chaves, segredos, retratos, instrumentos de trabalho, cravos. Há de fato um mundo rural atravessando estas obras, com seus artefatos, suas enormes fechaduras, suas portas emperradas rangendo, seus passos vergando o assoalho no andar de cima.

Mas a idéia de coleção aqui está atravessada pela de multidão – tudo é múltiplo, aqui. Não vemos tanto os objetos um a um, mas seu conjunto, a totalidade deles, que forma um desenho próprio. Pirajá, o nome escolhido para a exposição, é um lugar onde se concentra uma população efervescente de peixes. Quase todos os trabalhos têm 260 unidades, o que relega o indivíduo à insignificância. No caso do segredo das chaves (na obra Segredos, 2014-2018), esta totalidade só pode ser vista de cima, como uma passeata de rua em foto aérea.

Esta multidão absurda me parece o mais interessante no trabalho de Renato. De um lado, há um fazer singular, um elogio mesmo do artesanato, da queima Bizen, por exemplo, que vem da vivência e habilidade do artista com tantos materiais. De outro, uma forma de entender este trabalho como multidão, o que apaga os rastros depositados em cada unidade. Como se uma força anônima fosse arrastando e apagando o rosto, o nome, os traços de cada um de nós.

Quando era criança, ele gostava de brincar de esconde-esconde correndo pela casa. O pai e os irmãos saíam para trabalhar e, naquele espaço de planta circular, quase labiríntica, ficavam ele e a mãe. Era fácil fugir dos chamados dela. Não só pela agilidade que a diferença de idade lhe garantia, e as inúmeras rotas de fuga escondidas na arquitetura que ele conhecia bem, mas principalmente pelo tilintar das chaves que ela sempre carregava consigo. A mãe tinha mania de trancar tudo. Até a dispensa. E por isso não se separava do molho de chaves. Seu caminhar era marcado pelo barulho que elas, muitas, faziam, batendo uma na outra, no ritmo dos passos. Para ter acesso às portas daquela casa-labirinto era preciso autorização da dona do lar, a mãe-guardiã.

A casa no bairro Pirajá, onde Renato Morcatti nasceu e viveu os primeiros 10 anos de vida, é hoje onde o artista voltou a viver e estabeleceu seu ateliê. Durante o tempo em que a família permaneceu em Contagem (cidade satélite de Belo Horizonte), ela esteve alugada e um dos quartos, trancado todos esses anos, guardava parte dos móveis da família. Ao voltar para a casa da sua infância, Renato conviveu por um tempo com o espaço vazio e com as lembranças. Até que decidiu retirar os móveis do quartinho e voltar com eles para seus lugares de origem. “Vocês também vão voltar para casa”.

Parte da produção recente do artista está ligada a essa volta para casa. Hoje um bairro residencial de Belo Horizonte, originalmente o Pirajá foi um bairro formado por agricultores, que se estruturou perto da estação de trem. Lá eles criaram um mercado cooperativo para distribuir o que produziam. Talvez não por coincidência, a palavra de origem Tupi que dá nome ao bairro faça referência à elementos individuais em condição de agrupamento. “Pira” que dizer “peixes” e “já” se refere a “repleto”, tendo como significado “o que está repleto de peixes”.

 

Pirajá ­revela já no nome elementos importantes da poética de Morcatti. Como cardumes, as séries de esculturas e desenhos apresentam seu interesse pelo múltiplo, pela profusão, pela repetição e por peças pensadas individualmente que também assumem dimensões de conjunto, que se organizam, reorganizam e reconfiguram a cada momento, a cada momento em que são expostos. É o caso por exemplo de Nós  (2016/2018). O conjunto de mais de 200 chaves feitas em cerâmica estão organizadas em molhos de duas, três ou quarto chaves cada um, como o molho que tilintava no bolso da mãe que corria atrás do filho pela casa.

Suspensas em um vergalho, como um varal, elas nos apresentam dois pontos de vista: guardando certa distância vemos o conjunto, como um corpo único, com forte presença física no espaço. Ao nos aproximarmos, conseguimos ver cada uma das chaves, e reparar que todas, apesar de serem chaves, são diferentes entre si. Aqui temos outro ponto importante na poética de Morcatti: a multiplicação que se interessa não pela unidade, pela padronização, mas pelas diferentes possibilidades de ser o mesmo.  Uma dinâmica que se dá no próprio processo de cerâmica escolhido pelo artista, mas que também é resultado dele fazer as peças uma a uma.

Acostumado a trabalhar com materiais diversos, como madeira, argila, cimento e aço, Morcatti incluiu a cerâmica em seu repertório escultórico desde 2017. Parte do resultado dessa nova pesquisa é o que pode ser visto neste conjunto recente de trabalhos. Ao invés de grandes esculturas, essas séries são formadas pela repetição e acúmulo de objetos cerâmicos de pequenos formatos realizados em três técnicas distintas – o entalhe, a modelagem e a fundição. Queimadas no estilo de Bizen, as peças são levadas ao forno sem esmaltagem, realçando a textura e a cor crua natural do material.

Há algo de ritualístico no processo da cerâmica. Ele pede paciência, pede tempo. É um trabalho que chama o coletivo, que exige o trabalho conjunto, a presença do(s) outro(s). Na técnica escolhida por Morcatti, é preciso várias pessoas para montar o forno, de cerca de 9m de diâmetro e 1,5m de altura. Por conta das grandes dimensões, as queimas são coletivas. Peças de diferentes autorias são colocadas juntas e é preciso a ajuda de todos, como em uma vigília, para controlar a temperatura do forno, que pode chegar a 1300 graus. É preciso alguns dias para o forno chegar à temperatura ideal e depois mais alguns dias para que ela baixe e as peças possa ser retiradas.

Essa dimensão ritualística, quase alquímica, permanece presente nas obras de Renato. Além das imagens de chaves e peixes evocadas por essas obras e referências já citadas – e que também estão presentes em diferentes religiões, mitologias e tradições –, há os Guardiões (2017/2018), feitos em cerâmica, que normalmente o artista posiciona ao lado da porta principal de entrada ou no alto da parede, oferecendo proteção e guarda. Todos localizados em uma altura acima da cabeça dos visitantes. Eles são como vigias, sempre “olhando” as pessoas de cima, mas também fazendo com que o visitante desloque sua postura convencional dentro de um espaço de arte. Acostumados a ter as obras montadas tendo a altura do olhar como referência de posicionamento, eles agora tem que olhar para cima para poder ver a obra.

Aqui é importante ressaltar a dimensão da presença do corpo pela qual a produção de Renato Morcatti se interessa. Não me refiro à biografia, apesar deste texto começar com uma história pessoal do artista, mas ao corpo físico.  Ao caminhar por esses trabalhos, o espectador não tem como fugir do aspecto sensorial das peças: além da memória afetiva pessoal do barulho de chaves (em Nós) e do deslocamento do olhar (com os Guardiões), há também a necessidade de reposicionamento do corpo para poder ver trabalhos como Segredos (2017/2018), que reúne 300 peças de cerâmica montadas na altura do chão. É preciso se abaixar para poder ver. O corpo do espectador é colocado em posição quase de reverência ao praticamente se ajoelhar para se aproximar da obra. Entre (2017) também “pede” essa outra postura. O título é como um convite ou desafio a quem está do lado de fora da estrutura de aço que lembra uma grande gaiola. Dentro dela estão peças em cerâmica e tijolos.

 

O corpo do artista também é usado como medida. Além de moldar uma a uma as peças das series Nós e Segredos, dando uma espécie de personalidade individual a cada elemento desses grandes conjuntos, em Escala Madre (2017), os desenhos de corpo inteiro dos guardiões são feitos em escala natural, tendo o corpo do artista como referência. Todos os guardiões tem 1,78m de altura (mesma altura de Renato) e trazem no lugar da cabeça, ferramentas de trabalho manual, como enxadas e pás. Em Escala 3x4 (2017) temos a mesma lógica mas em desenhos feitos só dos “rostos”. Nessas séries, realizadas com carvão, gravite e pigmento natural, a repetição, base da escultura, também é um elemento fundamental. Aqui, isso se dá no número de folhas e em sua organização em sequência, mas também nas formas que, apesar da unidade, mantém evidentes os múltiplos traços que as constituem. Nesse sentido, ver esse conjunto de trabalhos reunidos é ter também a possibilidade de pensar como uma lógica escultórica permanece presente no plano bidimensional, e, ao mesmo tempo, como aspectos fundamentais do desenho se fazem presentes nas esculturas.

Um nome que emula certos contos antigos do oriente médio... com um toque proustiano... E uma obra que nos lembra certa tradição dos grandes recipientes indígenas confeccionados para guardar os corpos daqueles que seguiam para a eternidade... ou o néctar da vida: a água e os alimentos.  Ela carrega a memória das volutas que adornam os prédios e dos esplendores carnavalescos, algumas das versões do barroco nos trópicos...

 

Há nela, certa febre do ornamento, tão representativa da estética reconhecida na América Latina a partir da mistura cultural que nossa história forjou, resultando por exemplo em uma linha de pensamento que, em muitos sentidos, define nossa produção artística: a antropofagia oswaldiana.

Renato traz uma pendulação de duas vertentes do ato de construir. De um lado, a concretude da manipulação dos materiais pelas mãos – terra (argila, tijolo), metal (folhas, vergalhões, arames), instrumentos e técnicas (lápis, tintas, cinzéis, esmaltação, modelagem, escultura, desenho) – e a exaustão do corpo. De outro, o estabelecimento de uma simbologia cujos signos são revisitados ao longo das sucessivas séries que o artista desenvolve.  A casa, a chave e suas pencas, a montanha, o ornamento tantas vezes visto, carimbado como marcação de pertencimento, a faca, o guardião, o ninho, o familiar e o puro estranhamento são as inscrições recorrentes nas suas narrativas poéticas à vida ao redor. Tão próxima e tão inalcançável. Objetos compostos por inúmeras partes entrelaçadas e por suas sombras.

Nas instalações, a cor da terra é eventualmente coberta por azuis e amarelos que recobrem a pele da cerâmica. E as ânforas recebem inúmeras incrustações e apêndices, às vezes figurativos, às vezes puro ornamento. São grandes montagens cujos nomes são pequenas histórias que se apoiam na infinidade de elementos de cada conjunto: O lugar que ocupo, também me habita | O que a paisagem insiste em guardar | Testemunho silencioso das narrativas familiares | Mãe de Nós | A casa que me Vê/A cor que me Guarda | Jardim das Margaridas | A sombra das ânforas...

Entre eles, surge a unicidade hierática dos Guardiões, um e outro e outro... Figuras sintéticas em contraposição a abundância barroca das outras obras. Azuis. Corpos cujas cabeças abandonam a forma humana e modelam ferramentas para trabalhar a terra: ancinhos, picaretas, enxadas... São seres cujo fazer se incorpora à anatomia. Guardam talvez este saber que nos permite transformar as coisas da terra... o mais antigo saber do homem. Talvez o ícone de certa narrativa em aberto proposta pelo conjunto das obras...

O nome da exposição Pirajá surgiu de uma atmosfera de significados que vai desde do locus vivente do artista até a etimologia da palavra, confluindo para composição anímica da obra. Renato Morcatti mora no bairro Pirajá em Belo Horizonte onde tem sua casa-atelier, ambiente inspirador estruturante de sua criatividade. Pirajá é uma palavra de origem Tupi para designar lugar onde se coloca os peixes para serem tratados ou ... o que está repleto de peixes: pira (peixes) + já (repleto). Nesta atmosfera reluzente e telúrica tem-se também a definição do dicionário Aurélio: aguaceiro súbito e curto, violento e aluvial, acompanhando de ventania, comum nos trópicos, entre a costa da Bahia e os estados nordestinos.

Sim, pelo viés do realismo fantástico, podemos imaginar que Renato habita um espaço concentrado em tensão com respeito a natureza da alma e executa sua obra dentro de uma voluta física em situação limite, como uma narrativa intangível.

Em Pirajá temos os desenhos a carvão, pigmento minerais e grafite e as séries escultóricas realizadas em cerâmica, em três distintas expressões: o entalhe, a modelagem e a fundição. Abrasados pela técnica secular de queima japonesa Bizen, tem se a harmonia ímpar de nuances e cores infinitas.

A intenção figural pela multiplicação de gestos gráficos, determina a escala humana, a partir da silhueta do corpo do artista, nos desenhos de Escala Madre, com múltiplas cabeças de ferramentas da agricultura. Os desenhos da série Ostiário, são as chaves escultóricas da série Nós, representadas no plano, em uma indistinção das chaves que se mesclam.

Entre, um conjunto de pequenos totens “trancados” em gaiola de ferro. Sem dúvida alguma, uma reflexão às questões sobre liberdade, opinião e posicionamento.

Nós, são molhos de chaves unidos por anel de couro. Cada peça única é um nó dos elementos de uma metáfora do sistema de proteção retorcidos de sua finalidade como elemento de segurança.

Em Segredos, as esculturas são a representação da linha de encaixe e sucos dos segredos das chaves, que fazem girar o tambor, apresentadas em um agrupamento. O conjunto das peças provocam expectativas particulares a cada observador, que vão além suas formas.

Seus Guardiões são observadores de manufatura simples, de aspecto humano, moldados a mão, onde Renato transpõe a gênese da eclosão, da pulsação, dos fluxos, odores, massa, matéria, tatos, cortes, dores, amores e prazeres. Enfim, um ciclo que bilhões de humanos vivenciaram em negociações vazias e temporais, que moldam o que podemos ser pelo gesto de amassar a terra, da qual somos parte.

Contumaz são os elementos plásticos, cujas repetições sequenciais dos conceitos impregnados nas esculturas e nos desenhos formam a tessitura de pequenos sozinhos que se tornam sociedade.

A exposição Pirajá se dá por uma leitura de definições, onde tudo que é estranho, é “conclusão” da dúvida.

O artista criou para o Projeto Tech_Nô uma obra que reflete sobre a paisagem de Minas Gerais. Entretanto, ele propõe uma abordagem a partir da matéria, sim, porque há nas montanhas de Minas os notórios minérios que são transladados para várias partes do mundo.

Quando visualizamos uma montanha em Minas Gerais nos ocorre que em alguns anos ela poderá não estar mais ali. Trata-se de um fato intrigante porque as montanhas nos transmitem a impressão de serem potentes e perenes, contudo, elas correm o risco de serem devastadas, recortadas, fatiadas e vendidas, o que nos causa um estranhamento singular. E ainda hoje nos impressiona que lugares inteiros possam ter sua paisagem aniquilada.

A silhueta que o artista apresenta aqui nos coloca diante desse impasse. Ele decidiu se concentrar na matéria para forjar seu trabalho: montanhas negras, barro cru. Essa paisagem de Morcatti, por outro lado, acalma-nos, e convida-nos a pensar em negociações ideais, em que o homem e a natureza entram num acordo no qual a extração de minérios não devaste a beleza e o meio ambiente. Seria possível? Fica a pergunta para nossa reflexão.

Toda a obra de Renato passa por essa energia matérica, das ferramentas de construção e da agricultura, do fogo e da forja, do ferro e do aço. Ele é um Ogum em plena atividade!

A exposição ME VI, nasce de um olhar inquieto sobre a paisagem natural e construída, dos caminhos percorridos pelo artista e do desejo de compreensão do entorno em que vivemos.

Ver-se, nesse sentido, aponta não apenas para a memória, mas vai além e se transforma em um olhar distanciado de si mesmo, na busca de um significado subjetivo, sobre quem somos e o que buscamos.

Para Renato Morcatti, ver é apropriar-se do entorno, inventar e criar um vocabulário próprio, fruto do que é percebido.

A paisagem é um modo de representação da natureza, um mapeamento sensível do espaço. Como símbolo espacial de um imaginário, ela aponta para o sentido do universo que nos circunda.

Repletos de significados, os desenhos e esculturas reinventam o espaço como uma construção afetiva do lugar. Percebe-se que os trabalhos são compostos por marcas e matrizes. Marcas, pois expressam uma cultura, e matrizes porque participam dos esquemas de percepção, concepção e ação.

A relação entre paisagem e memória, está fundamentada na geografia da percepção, na existência de um conjunto de signos que refletem uma composição sensível, resultado de uma seleção plena de subjetividade a partir dos seus questionamentos.

Neste sentido, as obras da exposição ME VI resume o processo de criação do artista Renato Morcatti, atento a registrar através do desenho com traços, linhas e gestos, as dúvidas e perguntas suscitadas como uma escrita gráfica que instiga e gera a invenção de uma linguagem e de um universo poético.

De certo modo, todo artista (re)cria um universo mítico do qual procede e de onde destaca peças que passam a representar sua forma de estar no mundo. É um processo íntimo e pessoal que se apresenta ao público transfigurado em algumas chaves de leitura. É um processo também que solicita do público uma (pré)disposição para sonhar, explorar fantasias.

Com Ilê da mona, Renato Morcatti dá continuidade a uma experiência de memória afetiva iniciada em Pirajá, sua primeira exposição individual. A casa onde o artista nasceu e viveu seus dez primeiros anos permanece como dínamo propulsor e santuário da matéria que compõe e organiza sua obra. A morada se faz presente a partir de revivescências guiadas pelas lembranças do lugar habitado e que também habita Morcatti ao longo da vida. Desta vez, suas emoções vão em direção à prática artesanal para ornamentação de cruzes de madeira com papel de seda, preparadas para proteger a casa e seus moradores contra o mal do mundo, exercício vivenciado em sua infância.

Esse trabalho manual ressurge na série Mariposa, especialmente na peça A cara a tapa, exposta na vitrine. Frágil e delicada, a obra se encontra em mutação e passará por um experimento de fotodegradação, com exposição constante à luz solar e ultravioleta (luz negra). O processo promoverá a descoloração progressiva de suas cores, "envelhecendo” ou “fazendo nascer”, na medida em que as propriedades da matéria forem sendo transformadas durante o período expositivo.

De outro lado, Renato resgata diferentes azulejos, peles/máscaras que revestem a maior parte das paredes da casa. Essas peças se tornam o fundo dos oito estandartes da série Guia, os quais entronizam uma figura recorrente retratada em posições atrativas. As formas florais ou geométricas dos azulejos são recriadas sobre lona na confecção dos estandartes. A técnica de criação e experimentação com esse tecido rústico se manifesta na habilidade de desenhar, pintar, cortar, amarrar, costurar, fazer nós utilizando o algodão, assim como o carvão, a tinta a óleo e acrílica. De objeto de culto religioso e popular, de prevenção contra maus fluidos, de exposição de divindades protetoras, os estandartes transgridem essas funções e se tornam manifestos irreverentes da mona que preside a este ilê.

Ilê da mona traz consigo um mocó, um esconderijo de outra memória afetiva, uma outra criação artística que não sabemos o quanto é anterior (ou não) ao projeto estético-artístico de Morcatti. Tara Wells ressurge e (re)encontra Re-nato na casa-santuário, no palco dos estandartes, no espaço da matriz religiosa que se torna transgressão. Tara emerge e passa a conviver com o espaço familiar, em uma nova dinâmica ainda a ser explorada e que abre novas perspectivas para a produção do artista.

Nesta nave-galeria, mergulhamos no ilê e no mocó de Renato Morcatti, nas memórias da casa, nas lembranças de Tara. Com uma surpresa adicional: uma vitrine na entrada que poderá funcionar como um prisma óptico, metamórfico, para buscar novas possibilidades de leitura.

Vicente de Mello
Fernanda Lopes
Marília Panitz
Alberto Saraiva
Marco Tulio Resende
Luiz Morando
Sandro K

• Sandro Ka

Aquilo que não cabe, transborda.

Pelas mãos de Renato Morcatti, a arte do fazer constrói vocabulário e musculatura. Do barro ao forno ou do atrito do carvão no papel que se faz desenho, suas criações são medidas pelas intensidades, excessos e delícias da fatura. Nesta breve exposição, o artista apresenta um recorte de sua produção recente, marcada pelos tensionamentos entre os códigos da cultura popular e o frenesi da contemporaneidade.

 

No domínio do artista está, também, a artesania na reconstituição de memórias e, paralelamente, na produção de desconfortos e estranhamentos. Pois sua produção reconstitui o ordinário, elevando o cotidiano para um espaço de sacralização, tendo a casa como ponto de partida e, sobretudo, como lugar de ressignificação. Os objetos e imagens que cria são familiares, mas, também, são outros.

 

A partir da casa, Morcatti abre portas, janelas, frestas e rachaduras, transbordando histórias que não cabem mais nela. A casa da infância, das reuniões familiares, da moral e dos bons costumes, já não é mais a mesma. Ela se transfigura e ganha novos sentidos e dimensões a partir da revisitação do artista a suas memórias. As coisas da casa assumem, assim, outras formas, materialidades e dimensões. Nesse contexto, artefatos como chaves, ferramentas e filtros de barro deixam de ser meros objetos. Nos altares criados pelo artista, convertem-se em receptáculos que guardam e reconstituem lembranças, transfigurados por novas cores e adornos. Por mais que suas cerâmicas e desenhos nos guiem, num primeiro momento, para uma zona de conforto, logo nos conduzem a imersões profundas. Universos particulares que transbordam.

 

O trabalho do artista está na insistência dos modos de fazer e na constância da criação de imagens que afirmam mitologias em sua poética. Como rito e devoção, arte e vida se imbricam na produção de Morcatti. Trata-se de um corpo que se coloca por inteiro no trabalho, dedicação exemplar ao ofício de artista. E transborda, em barroquismos e excitação. Não por acaso, seus processos têm a terra e o fogo como elementos centrais, avatares de transformação. Pulsante e intensa, a obra de Morcatti não cessa. É mutante, como tudo na vida.

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